astrid y gastón

Eu tinha alguma expectativa em ir ao Astrid y Gastón porque é o restaurante mais famoso de Lima e considerado um dos melhores restaurantes do mundo, segundo a lista St. Pellegrino. Claro que, pra não estragar a experiência, esqueci desse detalhe e tratei de provar cada coisa com cuidado.

A primeira coisa que perguntamos foi se eu, como pessoa alérgica a crustáceos, poderia pedir o menu desgustação, que consiste em 12 pratos a um preço único. Claro que devem ser porções mínimas, como um menu degustação tem que ser. Mas são 12 coisas diferentes pra experimentar, lógico que vale a pena. Mas a maioria dos pratos tinha crustáceos e eu não pude pedir. Nem o ceviche eu pude provar, já que o leche de tigre preparado na casa leva um fundo como base que é feito de crustáceos. Uma pena :(

Como eu tinha certeza que, apesar disso, queria comer peixe ou algum fruto do mar, tratei logo de pedir um chardonnay francês, com a certeza de que acompanharia bem qualquer prato de frutos do mar. Assim eu não ficaria tentada a comer alpaca :D

Mas tudo bem. De entrada, eles servem uma tábua com pães maravilhosos feitos na casa, de canela, chocolate, com ervas, além dos grissinis (esses eu quase não deixei pra o marido, de tão bons que tavam), acompanhados de azeite aromatizado, manteiga e chimichurri.

A primeira entradinha foi esse prato que consistia em dois cones crocantes com um mix de peixes, um canapezinho de caranguejo e outro com base de batata.

Depois, pedimos um pulpo al cilindro, marinado e servido com espumas de azeitonas pretas em cima de um creme de batatas amarelas. Achei muito bom, mas confesso que meu preconceito com espumas permanece: tenho nojo, acho feio e o sabor não me surpreendeu ao ponto de me fazer mudar de idéia. Totalmente dispensável, na minha opinião. Se fosse um creme de azeitonas, se sairia bem melhor.

Me surpreendeu o menu ter tantas opções de carne (alpaca, porco, pato e até cuy), tanto que foi difícil escolher alguma opção que fosse de frutos do mar e não tivesse crustáceos. Tive que pedir ajuda aos universitários. O garçom, muito simpático, sugeriu o atum selado com crosta de especiarias, espuma de coco, molho de tamarindo e huacatay, uma erva peruana que tem um frescor delicioso. Pra acompanhar, um juane, aquele bolinho de arroz cozido na folha de bananeira que falei no outro post.

Tarta pediu um prato que fiquei salivando, mas não pude nem provar por causa dos crustáceos. Era uma espécie de risoto com camarões, langostinos, lula, mariscos e lagosta.

Por fim (e não menos importante), vem à mesa uma mini-estante de docinhos com trufas saborosíssimas, macarrons e gomas doces. Pra você se servir à vontade.

Gostei muito do restaurante e principalmente da atenção que os garçons dão à experiência de comer no Astrid y Gastón. Todos os pratos são super bem explicados, nos mínimos detalhes e se percebe que há uma preocupação de mostrar ao cliente que cada preparação é feita com cuidado, cada ingrediente é bem pensado antes de entrar no prato, não é simplesmente invenção de moda. Claro que eu dispenso espumas e outros modismos, mas isso é uma questão pessoal. Recomendo uma ida ao AYG com a simples intenção de comer bem e, principalmente, sem expectativas demais. Garanto que a experiência vai ser bem mais válida.

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O que comer: Lima

Estando em Lima, depois de visitar o centro e todas as igrejas e museus maravilhosos, não existe muito o que fazer a não ser andar por Miraflores e comer muito, mas muito bem. As opções são muitas, a cada quarteirão tem pelo menos um restaurante excelente. Não perca tempo escolhendo muito, arrisque-se: sempre sai uma boa surpresa.

Brasileiro é rico no Peru, mas isso não significa que você precisa ficar esbanjando o tempo todo. Olhe sempre o cardápio antes de sentar no restaurante: é importante saber qual a prata da casa e principalmente checar os preços. Não é à toa que deixam os cardápios na porta do estabelecimento.

Se esbalde nos peixes e frutos do mar diversos; coma ceviche sempre que tiver vontade, eles são bons em quase todos os lugares. Langostinos graúdos, polvo na parrilla, peixe à la plancha, tem da forma que você quiser. Abuse deles, são todos ótimos e frescos. A indústria pesqueira do Peru é avançadíssima e é modelo de inveja pro Brasil, que tem uma costa tão grande e não sabe aproveitar sua riqueza.

Se estiver no inverno e gostar de vinho, peça uma taça; todo lugar serve vinho na taça e os preços são os mesmos de um pisco sour. Aliás, não abuse do pisco sour, palavra de quem entende do assunto, hahaha. Pisco é uma delícia e justamente por isso você chega rapidinho no quinto e não é bolinho. Trust me, i’ve been there. Twice.

E, claro, sempre vai existir a cusqueña, a melhor cerveja do Peru. Quem não é de bebida alcoólica, peça a chicha morada, mais saudável que refrigerante e refresca.

Abaixo, segue um guia de alguns lugares que visitamos. Repito: arrisque-se. Entre num lugar sem pretensões, você pode ter uma grata surpresa.

La Eñe: restaurante espanhol com um toque peruano. Fomos sem pretensão nenhuma e é um lugar delicioso. Sentamos num terraço semi-aberto coberto de plantas, muito agradável.


Tarta na cusqueña e eu no vinho

Pulpo a la gallega: lâminas de polvo com batatas temperados com ají panca:

Salmón marinado com espinacas: pedaços bem generosos de salmão marinado acompanhados de folhas de espinafre cruas com molho doce:

Yuquitos relleños: nada mais que um bolinho de macaxeira (aipim) recheado com queijo (a cava foi só pra tirar um sarro :D):

Café de La Paz: café simpático em frente ao Parque Kennedy, no centro de Miraflores. Daqueles que você senta na rua, embaixo de uma tenda e fica só vendo a vida passar.

Tequeños de queijo brie com creme de abacate:

Tábua de frios pra acompanhar um vinho no friozinho que tava:

Ceviche de linguado delicioso, sempre acompanhado de camote e choclo:

Solari: restaurante grande, com várias opções de carne na parrilla. nesse dia eu tava a fim de carne suculenta, então foi ótimo.

Bife de chorizo com salada:



La Red Cebicheria
: uma das mais tradicionais e antigas cebicherias de Lima, funcionando desde 1981. Fomos, sem querer, num feriado nacional, dia de São Pedro e coincidentemente o dia nacional do Cebiche. Não podíamos deixar de pedir o carro chefe do La Red:

Depois, um pulpo a la parrilla, com muita cebola:

peru

Pois é, amiguinhos, como muitos de vocês sabem, passei 15 dias de férias no Peru e não preciso dizer que foi incrível. A comida peruana, pra mim, é uma das mais encantadoras do mundo e certamente a mais representativa dentro da culinária andina.

A gastronomia andina é aquela que acolhe todos os países atravessados pela magnífica e bela Cordilheira dos Andes (assustadora pra alguns que viram aquele filme dos jogadores de futebol que sobreviveram a um acidente de avião comendo uns aos outros), ou seja, o Chile, a Bolívia, o Peru, o Equador, a Colômbia e a Venezuela. É uma cozinha muito rica, totalmente influenciada pelos povos indígenas que habitavam aquelas terras antes da chegada dos espanhóis. Muito do que se consumia pelos povos incas ainda faz parte da gastronomia atual. A alimentação era farta em legumes, tubérculos, frutas, cereais, peixes e carne de animais locais.

A batata é o carboidrato base da cozinha peruana e andina. O arroz, que é a base da nossa cozinha brasileira, só chegou aos países andinos com os espanhóis, mas até hoje a batata reina suprema como fonte de energia. Por volta de 2.500 a.C., já eram cultivadas cerca de 200 tipos de batatas diferentes e hoje já são catalogadas mais de 2.500 tipos diferentes. Amarelas, laranjas, doces, pequenas, grandes, cozidas, fritas, em forma de purê… batatas das mais variadas formas, cores e sabores.

Outro alimento andino que anda muito em voga no vocabulário nutricional é a quinoa. Era considerado um alimento sagrado pelos incas e é cultivada há mais de 5 mil anos. É um cereal muito rico em carboidratos, vitaminas e ácidos graxos essenciais ômega 3 e 6, possui mais proteínas do que qualquer outra planta da sua espécie. Ajuda a aumentar a imunidade, a memória, reduz o colesterol ruim e ainda ajuda as mulheres a diminuir os sintomas da TPM e menopausa. Ou seja, quinoa é deus. Pode ser usada como cereal no café da manhã, em saladas, sopas e pode substituir o arroz em risotos.


fonte

Mas não podemos falar de culinária peruana sem falar do milho. São cerca de 35 variedades: branco, amarelo, preto, que podem ser servidos cozidos, fritos, tostados, como bebida e como base pra vários pratos salgados e doces. O tamale é um exemplo interessante: é bem semelhante à nossa pamonha (só que acho nossa pamonha mais gostosa), é servido enrolado na palha do milho, cozido do mesmo jeito. O sabor é um pouco mais suave devido ao tipo de milho.


fonte

Desse milho negro se faz uma bebida muito consumida em todo o país, a chicha morada, que é simplesmente a maíz morada (o milho pretão) fervido e liquidificado com água e açúcar. É muito bom!

A chegada dos espanhóis trouxe consigo alguns animais, legumes e temperos que os ameríndios não conheciam e que foram enriquecendo ainda mais sua cozinha. E acho que a principal característica da cozinha andina é essa fusão de alimentos (que se convencionou de chamar de cozinha criolla): as heranças indígenas conservadas até hoje misturada aos hábitos trazidos pelos espanhóis e depois pelos outros povos que chegaram ao continente americano, como chineses e japoneses, promoveram esse samba do crioulo doido delicioso e rico, possibilitando recriar e até se apropriar de valores dessas outras culturas pra constituir essa que é uma gastronomia muito autêntica e original.

Cozinha de mar, montanha e selva

A cozinha peruana é dividida dessa forma, de acordo com a localização geográfica. No litoral, banhado pelo oceano Pacífico, a variedade de peixes e frutos do mar é enorme (cerca de 2000 espécies) e em Lima é basicamente o que se come. Langostinos e camarones,como eles chamam, aparentemente não têm nenhuma diferença, exceto que os langostinos são de mar, menores e os camarones maiores e de rio (e mais difíceis de serem pescados).

Ceviches de quase todo tipo de pescado, sempre servidos com muita cebola roxa, camote (batata laranja meio doce, gosto muito semelhante ao da abóbora), choclo (milho de grãos grandes e meio esbranquiçados, quase sem gosto), leite de tigre, que nada mais é que o suco do limão usado pra marinar o prato junto com os sumos liberados pelo peixe. Dizem que cura ressaca, viu? O tempero é ají e salsinha. Em quase todo lugar o ceviche é igual, mudando apenas a acidez e picância do prato. Particularmente, prefiro os de acidez moderada e a picância só vai influenciar na quantidade de cerveja que eu vou beber. De todos os ceviches que provei (e não foram poucos), o que mais gostei foi o de truta, que não é um peixe de mar. Ceviche de linguado é o mais encontrado e muito gostoso também.

A cozinha de montanha é a cozinha dos Andes. A presença das chamadas terrazas, já utilizadas desde a época dos incas, faz com que numa mesma montanha exista uma série de microclimas (84 das 104 zonas climáticas da terra, o Peru é um dos 12 países do mundo que têm tamanha diversidade). Isso faz com que cereais que necessitem de frio extremo possam ser cultivados num mesmo local que frutas tropicais, por exemplo, só modificando a altitude. Não é lindo?


essas escadarias aí é que são as terrazas

Além disso, é aqui na bela cordilheira dos Andes que estão as alpacas e lhamas, aqueles bichinhos lindos que cospem em você quando você chega perto. E o cuy. Gente, o cuy é retratado nos quadros do século 16 como prato principal da santa ceia, pelo menos pelos artistas anônimos da escola cusquenha. Mas o cuy, pra quem não sabe, é o porquinho da índia, ou preá (que nada mais é que um hamster grande). Eu criei preá quando era criança. Além disso, o cuy é sempre servido inteiro, assado no forno, na brasa, recheado ou não. Não, eu não consegui comer, é muito bonitinho.


não dá, né, gente?
(fonte)

E por fim, temos a cozinha de selva (e em selva aqui leia-se a região da floresta Amazônica), com ingredientes muito semelhantes ao que é consumido no norte do Brasil. Peixes de rio como o Pirarucu, carnes de caça, larvas, palmitos, castanhas e mandioca. Frutas como a piña (abacaxi), o camu camu e a banana, que está presente em muitas preparações. Comi no Astrid y Gastón um atum delicioso que acompanhava uma juane, uma massaroca feita com arroz e cozido em folha de bananeira, bem típico da parte amazônica do Peru.

Aos poucos, vou postando aqui minhas impressões sobre a gastronomia peruana, receitas, guias de onde e o que comer em Lima e Cusco (e arredores). Mas aos poucos mesmo, porque é muita informação.